Agricultores usam lodo de esgoto como adubo e corretor do solo no Paraná

Massa News | 06/07/2017 14:53

Em novembro de 2016 o agricultor Carlos Eduardo Sussai, 30 anos, abriu as porteiras da propriedade rural da família, em Santa Fé (Noroeste), para um caminhão da Sanepar carregado de lodo de esgoto. Menos de um mês depois a cena se repetiu no laranjal de Edivaldo Correia de Oliveira, 53 anos, em Califórnia, também no Noroeste. Os dois produtores foram beneficiados pelo programa do Governo do Estado, desenvolvido pela Sanepar, que destina lodo de esgoto tratado para ser utilizado como adubo nas produções agrícolas. 

Nos últimos anos, 26 mil toneladas de lodo de esgoto higienizado foram destinadas às propriedades rurais do Paraná. O projeto foi recomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como boa prática a ser replicada. Hoje, metade do lodo produzido no Paraná é utilizado como adubo, gratuitamente para os agricultores.

Na região Noroeste, desde 2012, a totalidade do lodo produzido é aproveitado pelos agricultores. De 2007 a junho de 2017, 900 áreas agrícolas de 236 produtores foram beneficiados pelo projeto que é conduzido em parceria com o Instituto Emater.

Resíduos Sólidos

O programa socioambiental da Sanepar atende a Politica Nacional de Resíduos Sólidos, que tem por objetivo diminuir a geração de resíduos, incentivar a reutilização e, caso não possa haver a reciclagem, dar a destinação correta ao resíduo. “Com base nos estudos, observamos que o uso na agricultura seria a opção ideal, pois, mesmo o processo sendo mais complexo que a destinação aos aterros sanitários geramos menos impacto ambiental”, disse engenheiro agrônomo da Sanepar, Marco Aurélio Knopki.

O processo para o uso nas produções rurais envolve em média dez profissionais em cada regional da Companhia e 20 passos que vão desde a higienização e emissão de laudos de sanidade até o transporte do lodo às propriedades. 

Rico em Nutriente

Também conhecido como biosólido, o lodo de esgoto é um dos subprodutos gerados no tratamento do esgoto doméstico. Quando o lodo passa pelo processo de Estabilização Alcalina Prolongada (EAP), que tem como princípio básico a adição de cal, ele se transforma em um resíduo rico em nutrientes e de alto desempenho para correção do PH do solo, prática comum para aumentar a produtividade agrícola. 

“A ação do lodo tratado no solo é muito parecida com o processo de calagem, que é adição do calcário que regula a acidez da terra. Em determinados casos ele substitui 100% a calagem do solo”, explica o engenheiro agrônomo da Sanepar. O lodo, antes de ser destinado aos agricultores, passa por análises do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), que atesta com laudos a sanidade do produto.

O lodo é destinado segundo a necessidade de nutrientes da terra. “Recebemos uma análise do solo da propriedade e de acordo com ele determinamos quantidade e prioridade”, explicou o engenheiro. Outro critério que embasa a decisão é o tipo de produto produzido. “A legislação só permite o uso do lodo quando ele não tem contato direto com a produção, por exemplo, os pés de café”, explicou o extensionista da Emater, Ricardo Silva. É proibido o uso para o cultivo de mandioca (e demais raízes), pastagem e hortaliça.

Pesquisas

A iniciativa de usar o lodo na agricultura surgiu em meados dos anos 90, porém ganhou corpo nos últimos anos com o fortalecimento das pesquisas de melhoramento do processo de higienização e investimentos em infraestrutura. Em seis anos a Sanepar já investiu cerca de R$ 4 bilhões em ampliações de redes de água e esgoto e também em novas tecnologias aplicadas ao tratamento. 

Custos

Como o lodo tem valor de fertilizante químico a busca tem crescido. O principal motivo pela recente popularidade é a redução no custo de produção. “Em média, a economia é de 20% nos custos de fertilização e de manutenção da produtividade”, disse o extensionista Ricardo Silva, da Emater.

Edivaldo Correia de Oliveira confirma a economia gerada pelo uso do lodo. Ele tem 21 mil pés de laranja e prevê uma colheita de 30 mil caixas da fruta em novembro. Na safra anterior precisou fazer recuperação de calcário e de fósforo no solo, já neste ano o resultado da análise foi diferente. “Percebi uma grande melhora na condição do solo, não precisei fazer recuperação calcária nem fosfórica isso economizou cerca de R$ 30 mil”, afirmou. As laranjas ainda estão em fase de crescimento, por isso Edivaldo ainda não conseguiu fazer um balanço de produção.

Já Carlos Eduardo percebeu, além da economia financeira, o aumento da produtividade nos seus 23 mil pés de cafés. O material, rico em matéria orgânica se mostrou mais eficaz que a cama aviária (adubo orgânico de aves) tradicionalmente usado no cafezal. “As folhas estão mais verdes, os pés de café mais altos e mais carregados”, garantiu. Para confirmar a teoria, Carlos Eduardo deixou uma área de terra sem o lodo e assim mensura os dados. 

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